CRÍTICA – PROMETHEUS

Ao mesclar a sobrevivência do horror com a exploração do desconhecido, “Prometheus” falha nas duas vertentes, caindo apenas em um lugar comum.

Espaço. Ambiente de infinitas possibilidades, onde a imaginação pode superar seus limites, suas fronteiras com o desconhecido. Todo e qualquer tipo de questionamento pode ser respondido, remetendo-nos ao espaço. É lá que encontramos suporte para o obscuro. É lá que nos sustentamos em nossas teorias sem fundamento, e ao mesmo tempo é lá que a ciência busca conhecer dela mesma. As estrelas são a base para a ficção científica, que percorre em suas diversas dimensões, à procura de um norte para a eterna curiosidade do homem.

É por esse motivo que se mostra tão produtivo o número de títulos no gênero que envolve o espaço. Sempre que nos transportamos às estrelas, o palco se torna de infinitas possibilidades. E nossa expectativa para um filme ambientado no espaço se eleva à enésima potência quando vemos que o responsável pela produção em tela é o mesmo que transcendeu ao gênero terror sideral quando realizou, 32 anos atrás, o clássico filme “Alien – O 8º Passageiro”. O que nos poderia dizer de novo nesse universo? O que nos daria de prazeroso, que nos fizesse pensar e discutir após o filme? O que nos traria de aflição e medo durante a projeção?

Pois então o filme tem início e vemos já que a experiência não será tão agradável assim. Logo nos é apresentado um ser alienígena humanoide, em meio a paisagens terrenas, de forma abrupta e sem simpatia qualquer. O uso de alienígenas como explicação de algo é muitas vezes um recurso pouco inovador do roteiro para se esquivar de qualquer meio mais elaborado e imaginativo de solução. E usar um alienígena, de aparência inteligente, para iniciar uma narrativa, já não é um bom sinal.

E aí temos que o alienígena foi usado como objeto de explicação para aquela eterna questão da humanidade: “De onde viemos?”. A sequencia inicial deixa claro que o humanoide se desfez no planeta, iniciando a vida como a conhecemos, do unicelular à mitose. Ou seja, somos todos filhos desse ser alienígena. Dessa forma, uma tão importante pergunta ser respondida por esse artifício covarde? E logo no início da projeção?

De onde viemos

O filme também é bastante pretensioso. Como se não bastasse a referência inicial que faz de “2001 – Uma Odisseia no Espaço”, onde vemos um planeta em meio a sombras, com a luz solar surgindo em sua superfície, ao som de trombetas (que aqui mais parecem o tema de “Jornada nas Estrelas”), temos também a utilização de uma elipse que transcorre milhões e milhões de anos, como também ocorre no filme de Kubrick. Não é porque tenta flertar com temas filosóficos, religiosos e científicos, em detrimento ao meramente fantástico, que se igualaria a um clássico como “2001”. E essa pretensão, essa ambição também prejudicaram, pois com isso a cobrança fica bem maior e qualquer deslize pode ser fatal para a opinião do cinéfilo.

E quantos deslizes! Ao mesclar os temas de busca a nossos criadores e o universo do horror de “Alien”, o filme acaba não agradando nem uma coisa nem outra. Se por um lado a perseguição filosófica, a dúvida religiosa e o conflito de razão e emoção ficam enfraquecidos com a necessidade de se invocar um clima de tensão e mistério, por outro o próprio tema grotesco necessita de uma atenuação para não soar com tanta disparidade com a busca do saber.

Podemos dizer também dos personagens que, de tão rasos, não possuem qualquer identidade que nos permita diferenciá-los uns dos outros. Temos a chefe durona, o capitão linha-dura, a cientista visionária, o companheiro esportista, o geólogo antissocial, etc… Mas, desses personagens, qualquer deles poderia ter um papel diverso e genérico na história. Até mesmo o androide é um lugar comum, sendo bastante fraca sua participação, muito embora se tente fixar alguma complexidade em sua personalidade. Na verdade, tem algumas particularidades, mas que não se justificam nem tem qualquer fundamento científico para apresentá-las. É um androide que se mostra não só vaidoso, descolorindo seus cabelos para ficar semelhante ao protagonista de “Lawrence da Arábia”, como também provido de suaves emoções, sendo que em determinando momento, não esconde um sorriso de satisfação, e de raiva e ciúmes em outra situação. Mas o que é fato é que não sentimos nenhuma empatia com a tripulação. Nenhum ator se destaca nesse filme. E isso prejudica bastante a produção, que necessitava disso. Principalmente quando nos tocamos que é uma história de sobrevivência.

O conflito entre os dois não se desenvolve

E, como filme de sobrevivência, não traz qualquer momento de tensão, ou aflição que seja. As poucas sequencias que poderiam mostrar esse tipo de emoção ao público, não são feitas de forma satisfatória, aparentando ser até mesmo forçadas a estar naquele momento. De certo, o filme se mostra como um misto de sobrevivência com exploração do desconhecido. Sem sucesso nessas duas vertentes.

Da mesma forma, os conflitos emocionais entre os personagens soam tão falsos que mais parecem ter sido impostos apenas para figurar na tela. Temos conflitos entre pai e filho, entre subordinado e chefe, e até entre amantes. Porém, nenhum deles é digno de nota. Nenhum deles é trabalhado de forma a se desenvolver e se tornar uma parte importante para a trama.

Aliás, o filme tem muitos problemas que são impossíveis de não serem notados. O androide, em um momento, tem acesso a sonhos de um certo personagem, declarando fatos de sua infância que não se mostram tão importantes para a trama. Além disso, toda a situação do clímax do filme nos leva a crer que seremos levados a uma determinada posição que não é concretizada (e olha que a trilha sonora contribui para isso, nos remetendo ao tema de “Alien” em determinado momento). Bem, isso é frustrante. Outros pontos como o fato do androide ser fã de do filme já mencionado, assistindo-o incessantemente durante a viagem, mas usando-se esse artifício apenas para encaixar uma frase de efeito no momento da aterrissagem da nave, bem como o motivo pelo qual o dono da “Companhia” tocou o projeto à frente, se mostram tão superficiais e inócuos, que causa uma certa estranheza o porquê desses detalhes estarem sendo mostrados em tela. E por que não contar a ironia que se tornou a frase dita por um personagem “- Deus não traça linhas retas”, sendo que a linha reta que ele vê foi feita justamente por um Engenheiro (que seria o seu Criador)?

Poucos são os momentos de tensão e aflição

Muito embora seja um filme bem produzido, com boa fotografia e cenários que remetem ao universo inóspito, inclusive com uma boa utilização do recurso tridimensional, as falhas observadas principalmente no roteiro e na direção se sobressaem, tornando a experiência fílmica um tanto decepcionante. Tem até seus momentos de tensão, mas são poucos e não justificam a pretensão nem o calibre de um filme de marca tão clássica como “Alien”.

Uma coisa boa desse filme é que ele incita à discussão. Sempre é bom verificar que, após a exibição, o público fique se indagando sobre as questões propostas. Porém, não significa que a história seja boa. Muitos meandros e pistas foram lançadas (provavelmente para uma continuação), mas isso apenas confirma a fraqueza que esta produção tem de se sustentar por si mesma.

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6 Responses to CRÍTICA – PROMETHEUS

  1. Eduardo says:

    Pelo jeito o filme está mais para uma sessão da tarde… nem vou no cinema para ver.
    Eu esperava mais desse filme.
    Thanks pela crítica. 😉

  2. Ivan says:

    Eduardo, não se deixe influenciar pela crítica negativa. Sabe como são esses críticos….. todos excêntricos…… rss

  3. wildmatador says:

    Infelizmente tenho que concordar. Digo infelizmente pois esperava muito de Prometheus.Uma pena.

  4. Cláudio Valentim says:

    3 coisas foram benéficas nesta minha ida ao cinema para assistir Prometheus:

    1 – A reunião de 3 amigos que não se veem com muita frequência;
    2 – A diferença de ver um filme em 3D;
    3 – Saber que eu, como professor, também pago meia entrada.

  5. Carlos Eduardo says:

    Muito boa a análise, mas ainda fiquei curioso o suficiente para assistir o filme, valeu pela crítica, continue o bom trabalho que esta realizando.

  6. Daniel says:

    Além da produção, a cena que salva o filme, pra mim foi a da mulher tentando se salvar no final. Outro ponto positivo pra mim foi a parcimônia de sangue, que não é exagerado como em outros filmes de Alien. Quanto ao resto da crítica, concordo. Também esperava mais.

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