Crítica – Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge

Um herói adormecido. Seu manto repousa tranquilamente no leito da paz. Até que uma nova ameaça atinja seu território e o force a retornar para mais um, e derradeiro, combate. Acontece que esse herói não é o mesmo de antigamente. Carrega consigo todo o sofrimento, feridas e perdas de aventuras passadas. Como isso pode refletir no andamento de sua jornada? Como isso pode se fechar e tornar-se um arco delineado?

E eis que surge um novo vilão. Uma pessoa que fora criada em um submundo que não conhece virtudes nem boas maneiras. Um soldado que encontra apenas uma finalidade: conquistar a cidade e quebrar (talvez até literalmente) seu vigilante protetor.

E o que aconteceria se uma cidade inteira fosse isolada de seu governo? E se essa cidade fosse Gotham City? Uma cidade tão infestada de crimes e vilões, que talvez nem Batman fosse capaz de administrar sua harmonia. Como viveria sua população? Como seriam suas novas regras? Um interessante estudo social.

Pois bem, essa introdução é tirada de elementos trazidos pelas histórias em quadrinhos do Batman. O herói que retorna depois de uma “hibernação” é baseada em O Cavaleiro das Trevas, escrita por Frank Miller. O vilão que quebra Batman, da saga A Queda do Morcego, por Doug Moench e outros. E, por fim, Gotham City isolada é trazida pelo arco Terra de Ninguém, de  Greg Rucka e outros.  E essa é a trama central meio complexa de Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge, parte final da trilogia de Christopher Nolan sobre o homem morcego. E por falar em “hibernação”, notem a imagem do morcego saindo do gelo bem no começo da projeção do filme.

No início, temos a apresentação do vilão Bane, nos mostrando que há uma especulação para a concretização de um plano maligno que ainda será revelado. É uma introdução típica de filmes de ação, onde fazemos uma imersão já em uma ameaça, em uma situação de nervosismo e angústia. Nos prepara para toda a projeção da aventura, que nos resgatará para a vitória final. Também serve para firmar o tom do filme, eis que a cena é bastante movimentada, com produção complexa e bem trabalhada.

Logo em seguida, temos o personagem do Comissário Gordon, prestes a discursar sobre a verdade por trás da adoração de Harvey Dent, que nada mais foi do que um vilão psicopata que havia ameaçado seu próprio filho. E aqui temos um ponto interessante para frisar: o que vem a ser a ética, diante de uma mentira a ser mantida e cultivada para preservar um bem maior? Há, realmente uma necessidade de fazer com que as pessoas pensem diferente da realidade, apenas com o fundamento de que assim estariam mais seguras? Um cidadão que assim age estaria indo contra princípios éticos? Nota-se que o filme trata bem desse assunto, que inclusive é reforçado pela situação que vive Alfred, que esconde de seu patrão Bruce Wayne a verdade de que a falecida Rachel pretendia se casar com Dent, sob o pretexto de que assim preservaria a paixão no coração do herói. Será que foi uma decisão acertada?

Percebe-se que o filme se ancora em acontecimentos do longa anterior, como também (principalmente) retoma fatos da primeira parte. E encerra suas questões por aqui. Ou seja, procurou nessa derradeira sequencia,  firmar-se como uma trilogia a ser conferida em sua integralidade, e não em partes episódicas. Essa é a definição de “trilogia”: uma lógica em 3 partes. É na terceira que encontramos o padrão que foi adotado em toda a saga. Necessariamente precisamos ter assistido às produções anteriores para um pleno entendimento. Ele não se sustenta por si só, o que pode parecer como um ponto negativo, mas não é, pois, convenhamos, é uma trilogia. E isso nos traz a um outro foco: não se trata de mais um filme de super-herói, onde em cada dia vemos uma aventura diferente. Estamos diante de uma verdadeira saga, cuja personalidade do herói é desconstruída, reforçando o tema central dos 3 filmes, que vem a se destacar não como o sujeito de máscara caçando bandidos, mas sim contando uma história sobre a dedicação que um sujeito tem por sua cidade. É e história do povo de Gotham City, de como um visionário buscou seu desenvolvimento, e como deixou um legado para o filho lutar para sua manutenção. Esse visionário é Thomas Wayne. Seu filho, Bruce/Batman.

Fé no povo de Gotham. Esse era justamente o cerne tratado em Batman Begins. Quando vimos todo o progresso gerado por Thomas ser praticamente abandonado após sua morte (muito por conta da má administração dos sucessores da Wayne Enterprises), percebemos a motivação de Bruce em buscar sua retomada, em limpar a cidade de toda a podridão que a Máfia comandada por Carmine Falcone trouxe. E, nesse meio tempo, presenciamos o plano da Liga das Sombras em destruir (literalmente) a cidade para tirar do mapa (também literalmente) essa sujeira que consideravam. Mas Batman tinha fé no povo, tinha esperança de que a situação poderia melhorar. E ele iria fazer de tudo para, ao mesmo tempo, livrar Gotham do mal, e impedir seu desaparecimento.

Quando passamos por Batman: O Cavaleiro das Trevas, testemunhamos a tentativa da Mafia em se reascender, com a ajuda do caótico Coringa e, mais uma vez, a população joga uma luz no fim do túnel, o que serviu justamente para derrotar seu memorável algoz.

E, como de fato se mostra, em …Ressurge temos mais uma vez os cidadãos serem tomados à prova, com o plano de Bane em isolar Gotham, retirando o poder de seus governantes e fazendo crer que daria ao povo. Algo como inspiração em O Conto de Duas Cidades, de Charles Dickens, que trazia fundamentos e conceitos da época da Revolução Francesa. Que experiência em análise social! Que demonstração de otimismo na Humanidade! E que conceitos do sujeito atuando sobre o bem social, inspirado em paixões pessoais! É Batman salvando Gotham em respeito ao amor de seu pai. Bela transposição de família e sociedade.

O filme em si tem muitos pontos positivos, mas também muitos problemas, que ficam se equilibrando na balança e acabam por trazer um resultado não excepcional, como foi a segunda parte, mas apenas satisfatório, o que não deixa de marcar a produção como um fechamento digno para a trilogia. Só não é uma obra-prima.

Pode-se dizer que essa última parte se destaca pelas atuações. Enfim, um filme que reúne um elenco tão prestigiado por produções mais intimistas e independentes, se mostra digno de se manter a mesma qualidade em um blockbuster. Anne Hathaway como Selina Kyle foi um dos pontos altos da película. Sua naturalidade em transpor tanto sensualidade quanto agilidade, bem como seu temperamento meio sarcástico em sua interatividade com os demais personagens trouxe uma aura, uma energia que não poderia faltar para o desenvolvimento mais agradável da história. Qualidade equivalente também demonstrou Michael Caine, que, com sua interpretação como o mordomo Alfred, captou a emoção, o calor do afeto mais próximo do público, gerando aquela empatia com o protagonista que certamente ajudou no desenrolar principalmente na parte final da história.

Porém, não podemos dizer a mesma coisa para Marion Cotillard, que faz uma personagem um tanto apática, e ainda mostra uma das mais forçadas e fingidas cenas em sua aparição final. Tampouco Tom Hardy se apresenta notável. Podemos dizer que a máscara atrapalha um pouco suas expressões faciais, e sua voz distorcida lembra muito a de Darth Vader em Star Wars. Mas certo é que o personagem Bane é forte o suficiente para sustentar o confronto do Bem e o Mal.

Quanto ao roteiro em si, ele apresenta muitos furos, que são facilmente perceptíveis ao longo da narrativa. Muitas decisões são mau explicadas, mesmo em se levando em conta toda a fantasia que nos remete o cinema. Afinal, Nolan quis trazer mais à realidade o personagem de super-herói. Então, nada mais justo do que tratar também com seriedade todas as nuances destacadas pelo roteiro para o desenrolar da jornada. Dessa forma, não podemos aceitar resoluções fáceis e truques farsantes apenas para se fechar de forma adequada a história.

Mas uma coisa é certa: a trilha sonora do filme continua marcante, como é a de toda a série. Sua batidas como a capa se esvoaçando, seu tom baixo e sombrio, e seus acordes intensos trazem todo o sentimento que realmente deve ser experimentado na tela. Temos, em adição, um tema mais ardiloso e com um certo ar de astúcia para Selina Kyle, e uma parte mais deprimente, com gritos de revolução para o vilão Bane.

Enfim, uma trilogia para ser apreciada de forma completa, em suas 3 partes. E, como toda e qualquer trilogia, um “final” não tão digno quanto o “meio”, porém melhor que o “começo”.

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2 Responses to Crítica – Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge

  1. A analise (e o texto) ficaram muito boas. Parabéns!

  2. Ivan says:

    Excelente crítica. Assino em baixo…. ;o)

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