Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) [Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance) – 2014 – EUA – 119 min] – Crítica

birdman head

Escalando o ator que se encaixa perfeitamente com o papel, Birdman traz surrealismo e teatralidade ao cinema

Birdman_posterCertamente, há filmes em que pensamos  que determinado ator se encaixa como uma luva ao personagem. Porém, neste caso de Birdman, observamos que muito provavelmente o protagonista foi idealizado com o próprio Michael Keaton em mente, tamanha que é a semelhança do background do ator com o personagem Riggan Thomson. Talvez não se assemelhem no temperamento e contexto familiar, mas com certeza suas carreiras se alinham nos diferentes mundos da realidade e ficção.

Riggan Thomson é um ator decadente, que há vários anos protagonizou uma série de filmes de super-herói e hoje se vê estigmatizado com tal personagem, tentando uma retomada em sua carreira, produzindo uma peça de conteúdo mais profundo na Broadway. E, por aqui, temos Michael Keaton, que se tornou mundialmente conhecido com o Batman dos filmes de Tim Burton, produzidos há mais de 20 anos, tendo uma carreia meio apagada depois disso. Mais compatível que os dois, impossível. E sua escalação ao filme mostra-se um acerto no momento em que, vendo o filme, reconhecemos seu rosto e já trazemos com satisfação à memória seu auge cinematográfico de décadas passadas.

Todo o filme é realizado como se estivéssemos vendo uma tomada única, o que traz linearidade e uma sensação de teatralidade à narrativa. Mesmo porque, estamos testemunhando os bastidores das pré-estreias da peça teatral de Riggan. Ou seja, nada mais condizente do que vermos uma peça dentro de uma peça (e tudo isso dentro de um filme). Cenários se mudam e o tempo se desloca como nos palcos, seguindo às vezes um personagem, ou mesmo de forma tênue, com uma percepção que pode não ser imediata.

E aqui talvez tenhamos um certo problema com o filme. Todo o plano-sequencia, embora seja de uma ideia bastante satisfatória, torna a experiência um tanto cansativa, pela falta de pausas e excesso de movimentos circulares da câmera para interação com os diálogos dos personagens. Também, com uma quase obsessão em mostrar espelhos de frente, quebra um pouco a suspensão de descrença quando constantemente nos intrigamos sobre o truque utilizado para “apagar” o reflexo do equipamento de filmagem.

birdman camarim

Curiosamente, o protagonista pretende encenar uma peça baseada em obra de Raymond Carver, que também foi objeto para filmes como “Short Cuts: Cenas da Vida” (1993) e “Pronto para Recomeçar” (2010). Essas obras trazem uma forte carga sentimental, de angústias e dramas cotidianos, com pessoas comuns, o que muito se relaciona com os próprios acontecimentos dos bastidores da peça. Além disso, em um momento, Riggan relaciona Birdman com o ser da mitologia grega Ícaro, fazendo-nos pensar não só pela existência de asas em ambos, mas também pelas ambições do ator em sua tentativa de retomada. Em outro trecho, alguém recita um trecho de Macbeth, de Shakespeare, que também tinha profundas análises existencialistas em sua narrativa.

A propósito, o filme traz um recheio de personagens com conflitos familiares, profissionais e existenciais que podem fazer-nos pensar por um bocado de tempo. O que é a fama? E o que pode nos fazer de bem ou mal. E o que é o ostracismo, o medo de ser mal visto, o fracasso recorrente e iminente? Tudo isso nas costas do ator, que está à beira de uma explosão de sentimentos, que lida e trabalha com sentimentos alheios, e com seus próprios pode estar em falta.

birdman_still

Sua trilha sonora é basicamente composta de sons de bateria, o que traz de imediato o ritmo de percussão mais emergencial, refletida pela situação angustiante de momentos que antecedem a uma importante estreia para o ator, e também referencia aos artistas de rua da Times Square, região da Broadway, que muitas vezes se utilizam desse instrumento para chamar a atenção dos transeuntes. Atenção é uma coisa que o espectador já tem quando vai assistir a este filme com alguns toques surreais, mas que ao mesmo tempo flerta com a própria realidade. Um paradoxo que a arte cinematográfica contribuiu em muito na sua mistura elemental de relação dos dois mundos, o real e o fantasioso (e o real do cinema e o fantasioso do cinema).

Nota: 8

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2 Responses to Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) [Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance) – 2014 – EUA – 119 min] – Crítica

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