Boyhood: Da Infância à Juventude (Boyhood – 2014 – EUA – 165 min) – Crítica

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Levando 12 anos para filmar, Boyhood é o retrato fiel de uma vida

boyhood posterAcompanhar a vida de um garoto pode parecer trivial em nossas vidas reais. Mas transportar essa mesma experiência em um filme é algo um tanto complicado, por conta do tempo narrativo, da história a ser contada e da escalação de atores para o devido envelhecimento da pessoa. A não ser que você tenha o afinco de seguir os filmes de Harry Potter ao longo dos anos, ou mesmo um seriado juvenil duradouro com várias temporadas (como Dawson’s Creek e O Quinteto, que tiveram duração de cerca de 6 anos), e que convenhamos são para pessoas dedicadas e com extrema simpatia pelos personagens, não se vê uma outra forma de retratar a passagem do tempo na infância.

Mas este filme conseguiu. Nele, temos uma exata noção de como um menino passa suas fases da vida até chegar a um adulto de personalidade consolidada. Usando os mesmos atores, com duração real de 12 anos, gravando pequenas cenas, com grandes espaços de intervalo, as filmagens captaram toda a essência de sentimentos que nunca tinha-se conseguido em um filme.

A história gira em torno da vida de Mason, filho de pais separados que passa por esses anos enfrentando as dificuldades afetivas dos novos parceiros de sua mãe, ao mesmo tempo em que participa, à distância, de uma nova vida familiar de seu pai.

Ao vermos o mesmo ator mirim, no decorrer do filme, crescendo, amadurecendo, podemos ter uma impressão parecida com a de seu pai, que o via de vez em quando. De repente, aparecia mais velho, com cabelos compridos, para depois em uma próxima visita, aparecer de cabelos raspados, ainda mais alto e com espinhas.

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E não só a parte física dos personagens, mas também todo o cenário político e cultural das diversas épocas que passam em nossas vistas e percebemos como muita coisa muda de lá pra cá. Desde a trilha sonora, composta apenas de músicas pré-existentes, que marcam os períodos retratados, e é com satisfação que reconhecemos as músicas que embalaram os anos passados e já nos ambientamos no filme, até mesmo os contextos sociais, culturais e políticos, quando observamos um pós-11 de setembro, as eleições presidenciais americanas, e o advento de uso de celulares e vídeos da internet. Tudo mostrado muito naturalmente, com fluidez e sensibilidade para o espectador.

E esse acompanhamento só nos traz empatia aos personagens, como se realmente estivéssemos presenciando um drama real, familiar. E é com angústia e uma certa melancolia que observamos os aspectos inevitáveis da vida, que acabam por marcar as vidas de cada um dos membros, como o alcoolismo de um padrasto, ou mesmo a negligência da mãe para dar conta de seu futuro profissional.

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Algumas sequencias podem até parecer triviais e desnecessárias, mas é fácil perceber que, como também em nossas vidas, há momentos sem qualquer efeito bombástico, mas que mesmo assim, fazem parte de nossa história, como na história do filme, na história da vida de Mason.

Sendo assim, assistir ao filme é como se revisássemos a vida inteira de um círculo familiar, para que aprendamos com os erros alheios a sermos pais e filhos melhores, pois a vida passa. E rápido. Como se 12 anos se passassem em um piscar de olhos. Ou, no caso do filme, em pouco mais de 2 horas.

Nota: 10

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O Grande Hotel Budapeste (The Grand Budapest Hotel – 2014 – EUA – 100 min) – Crítica

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Como uma obra de arte em movimento, Wes Anderson consegue traduzir ao cinema de hoje todo o espírito da era de ouro da Europa

poster budapestÉ admirável quando vemos o cineasta traduzir, nas imagens projetadas na tela, toda a fantasia e ambientação do glamour europeu dos anos 30. São cenas pacientemente trabalhadas e detalhadas, com cores marcantes que nos dão uma rajada de símbolos ilustrando a magia que permeava a mente dos autores literários da época.

E como visão literária, cumpre observar que o filme é inspirado nos escritos do austríaco Stefan Zweig (que curiosamente morreu no Brasil), e retrata um fictício escritor dos anos 80, famoso e venerado por ter escrito um livro cujo título dá nome ao filme. Essa obra foi inspirada em conversa que o autor teve com o dono do decadente hotel nos anos 60, e trata de acontecimentos nos anos 30. A essência de literatura se intensifica quando observamos ao final de cada diálogo um “- ele disse”, como é feito em livros.

Com essas três linhas de tempo (anos 80 – 60 – 30), vemos também três razões de aspecto (formatos de tela), que espelham o que era normalmente projetado nos cinemas de cada época. Nada que confunda, apenas presta homenagem e retrata com fidelidade, não só móveis e decoração, como também figurino e contexto histórico. Até mesmo o ritmo também se diferencia, com um clima mais agitado, como nos antigos filmes dos anos 30 e um mais vagaroso quando chegamos aos anos 60.

Basicamente, vemos a história de M. Gustave, gerente do Grande Hotel Budapeste, que se vê injustamente acusado de matar uma velha senhora rica, que lhe deixou uma obra de arte como herança, e fica em meio a um complô dos familiares que querem tirar-lhe esse objeto.

A atuação de Ralph Fiennes como protagonista é primorosa, com seus trejeitos e dicção próprios para o cargo que lhe incumbe no rigor do trabalho e sutileza no tratamento dos hóspedes. E é um prazer também ver velhos parceiros do diretor, como Bill Murray, Owen Wilson, Jason Schwartzman e Bob Baladan atuando em pontas.

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Tudo é muito fantasioso. Desde os cenários suntuosos, até os diálogos e reações de personagens. Os herdeiros da velha rica são retratados quase como góticos (da forma que vilões seriam vistos em filmes antigos mudos), e os policiais com chapéus que lembram muito os Keystone Cops. Inclusive as cenas de ação mais parecem tiradas mesmo de um filme antigo, com técnicas próprias que nos deixam mais próximos da ambientação de época.

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Com uma trilha sonora rápida e envolvente, ao ritmo da Balalaica russa, a película cumpre seu dever de entreter, de prender a atenção do espectador, até seu trecho final. Talvez aí falhe em seu intuito, eis que sua finalização, além de um pouco piegas e repentina, dá a impressão de não corresponder com o restante da produção, digna de um antigo suspense policial com humor negro. Mas esse pequeno detalhe não esconde o que vários outros detalhes demonstram: que se trata de um belíssimo filme.

Nota: 9

As Tartarugas Ninja (Teenage Mutant Ninja Turtles – 2014 – EUA – 101 min) – Crítica

por Gabriel Escudero ninja cabecalho

Iniciando uma nova franquia para pelo menos uma trilogia, As Tartarugas Ninja traz toda a molecagem que os jovens exalam no comportamento lúdico e inconsequente.

ninja posterSabe aquela determinada fase da vida, quando estamos com os hormônios em ebulição e extravasamos pelas atitudes frenéticas e naquela ânsia de viver mais e mais? Pois bem, a adolescência é o cerne neste filme que, além de explosões e correrias que todo o filme de ação tem direito, também mostra os protagonistas digitais com uma personalidade jovial incrível.

Baseado nos personagens que surgiram primeiro em quadrinhos para depois seguir uma carreira sólida da cultura pop em desenhos e videogames, As Tartarugas Ninja é o ápice do que a tecnologia de captura de movimentos pode proporcionar, e convenhamos, só assim para acreditarmos em tartarugas antropomórficas. Tecnicamente, o filme é um primor que só uma produção com a chancela de Michael Bay (da série Transformers) poderia trazer à tona.

Mas não se pode dizer o mesmo do roteiro de das atuações, que beiram o marasmo, pra não dizer absurdo. É tanto furo na narrativa que notamos até um cansaço mental de todas as inúmeras indagações que criamos durante a história. São erros de continuidade, decisões inconcebíveis de personagens, frases forçadas de efeito e incongruências na forma narrativa que mostram que realmente todo o investimento milionário acabou por focar na parte visual, em detrimento do intelectual.

Talvez a grande massa das críticas negativas iniciais a este filme tenha vindo da ótica mais racional do aspecto narrativo da produção, porém não há que se negar que as virtudes técnicas da produção suplantam as falhas. E também não podemos deixar de perceber que as diferentes personalidades de cada tartaruga trazem um tom complexo para os protagonistas que foi trabalhado até de maneira bastante aceitável para os padrões de blockbusters atuais.

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As inúmeras referências de cultura pop mencionadas pelas tartarugas (principalmente Michelangelo), referindo-se a super-heróis, gêneros musicais e até seriados, fazem com que o espectador, reconhecendo tais referências (e qualquer jovem adulto – púbico-alvo do filme – poderá perceber), veja isso com satisfação e ache até divertido durante a projeção. As tartarugas, adolescentes que são, se interessam por tudo de cultural que aconteceu na última década, e isso traz a proximidade intencionada, fazendo que o espectador assuma a falta de brilhantismo narrativo e acabe curtindo uma boa e velha ação frenética descerebrada.

Certamente teremos continuações desse filme. A fórmula é a mesma de Transformers. Pode não agradar aos mais exigentes, mas a experiência pode ser positiva ao encarar que estamos vendo um filme de tartarugas mutantes. E ninjas. E adolescentes.

Nota: 7

Guardiões da Galáxia (Guardians of the Galaxy – 2014 – EUA – 121 min) – Crítica

por Gabriel Escudero 

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Recheado de músicas setentistas, em uma aventura espacial divertida e bem humorada, “Guardiões da Galáxia” resgata os bons tempos das matinês.

guardians-of-the-galaxy-poster-new-HDUma coisa se pode falar do filme: você sai leve, de alto astral, com vontade de viver novas aventuras com o grupo. E esse mérito se deve a um recurso inusitado usado na produção, que é a música diegética como elemento indicador do clima da história.

O protagonista, Peter Quill, é uma criança dos anos 80 que possui um walkman com uma fita reunindo faixas clássicas dos anos 70, por influência de sua mãe. Como todo bom pré-adolescente da época, saía com seu aparelho na cintura pra todo o canto, ouvindo as músicas inspiradoras. Pois bem, ele é abduzido e pulamos para sua fase adulta, quando se torna um explorador espacial (mais como um bandido, que rouba objetos valiosos de planetas inóspitos), e lá vai música novamente no mesmo walkman.

E isso vemos durante a projeção de todo o filme. Se no começo ele escuta uma canção mais depressiva, o que denota aflição ao se deparar com sua mãe doente, passa a ouvir uma mais dançante, empolgado com a premente captura de um objeto valioso, bem como a uma mais romântica, ao se deparar com uma possível relação amorosa.

A música é um dos fatores que torna esta narrativa muito interessante e atrativa, vez que atiça nossos sentidos e nos traz empatia com o protagonista. E devo dizer que, ao final, sem soltar spoilers, o clima alto-astral deve-se principalmente pela música tocada.

Um tópico que merece pleno destaque também são os efeitos e maquiagens, que trouxeram vivacidade e referência ao ambiente das histórias em quadrinhos. Com seus coloridos verdes e azuis ,os alienígenas retratados no filme são de uma afinação ímpar, notadamente as “filhas” de Thanos, Nebula e Gomora, que espelham o cuidado que se mostrou na produção quanto à caracterização dos personagens.

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Quanto aos efeitos, vemos os personagens digitais ganharem destaque pela facilidade de interação com o ambiente natural e seus colegas de carne e osso. A dupla Rocket e Groot formam o perfeito status do avanço que a tecnologia pode proporcionar ao conferir simpatia, por mais absurdo que o antropomorfismo possa parecer.

Mas o que realmente denota uma individualidade ao filme, que não o faz parecer com muitos outros do gênero que vemos por aí, é a capacidade de se fazer rir, sem parecer paródia. São diálogos bem sacados, cheios de ironia, sem contar as gags visuais e as situações absurdas que permeiam a história. Certamente uma toada diferente da que ultimamente se via, principalmente às produções com personagens da DC, com tom mais sério e realista.

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O clima de aventura espacial vista no filme desde já nos remete a “Star Wars” e mais alguns títulos vindos dos anos 80, especialmente “O Último Guerreiro das Galáxias”, mas temos também que trazer créditos a “Firefly”, seriado que muito se assemelha ao ambiente tanto espacial quanto bem-humorado do filme. Vale destacar que a série, não à toa, foi criada por Joss Whedon, diretor de “Os Vingadores” e consultor criativo dos filmes da Marvel desde então.

E por falar em filmes dos anos 80, nota-se uma semelhança entre a sequencia da captura do artefato no início do filme, com a do ídolo de “Os Caçadores da Arca Perdida”, o que já nos traz a grata remissão às aventuras de matinês, que se encaixa perfeitamente na narrativa de “Guardiões”.

Contudo, para não se dizer que tudo são flores no filme, há que se criticar a forma com que trataram da personagem Gomora. Um tanto forçado ao colocar suas reais intenções (o que se repete quanto à sua “irmã” Nebula), e também uma certa unidimensionalidade ao mostrar seu papel na formação grupo. Em outras situações, embora pareçam engraçadas, mostram que forçaram um pouco a barra ao solucionar uma situação que precisava ser urgentemente pensada.

Mas enfim, o que fica é a ideia de grupo, de que podemos fazer e acontecer se trabalhamos em conjunto, e que, apesar das adversidades e de eventuais tristezas, podemos nos levantar e viver plenamente novos desafios.

O uso de efeitos 3D no filme não atrapalham a narrativa e até nos faz imergir ainda mais no ambiente, pelos seus objetos flutuando, que mostram toda a profundidade de um espaço sideral. São pequenos detalhes que não servem para a narrativa em si, mas deixam a experiência um pouco mais densa.

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Composto de um elenco bastante eclético, com um até então desconhecido Chris Pratt como protagonista, Glenn Close em ponta mais burocrática e Benício del Toro em uma cena chave, a produção ousa em trazer o nome de Vin Diesel, certamente um chamador de bilheteria, dublando apenas uma frase repetidas vezes. É curioso e o resultado bastante eficaz para o filme.

“Guardiões” inaugura uma nova fase para o universo cinemático da Marvel, em sua ambientação cósmica. Mas não apenas isto, ele pode trazes uma nova visão sobre o gênero de adaptação de quadrinhos, deixando de se levar muito a sério e assumindo o que o público realmente pretende ver nessas aventuras, que é a diversão. Bom é que, no próprio filme, já avisam que “The Guardians of the Galaxy will return”!

E aguardem para a cena pós-créditos, já tradicional na Marvel, que embora acredite que não sirva como aperitivo para uma próxima produção, traz um inusitado personagem, que para quem conhece do histórico no cinema, será no mínimo curioso e engraçado. Como se a Marvel no final tivesse fazendo graça dela mesma.

Nota: 9

[CRÍTICA] R.I.P.D. – AGENTES DO ALÉM (2013)

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Uma comédia sobrenatural de ação que não acerta em nenhum quesito. É a mais recente bomba de Ryan Reynolds.

ripd posterJá no início da projeção, somos colocados no meio de uma perseguição, onde acontecem piadinhas sem graça, aparece um monstro totalmente mau feito, e situações fora de contexto surgem repentinamente na tela. Desde então, essa primeira má impressão vai se perdurar durante todo o filme, tornando uma experiência desconfortável para o expectador.

E olha que o tema poderia render uma boa aventura fantástica. Baseado em quadrinhos da editora Dark Horse, conta a história de um policial, que quando resolve não participar de um plano de corrupção do colega, acaba sendo alvo de uma emboscada que tira sua vida. Partindo para o além, é escolhido para integrar a “delegacia do céu”, que tem como missão capturar os “mortos” que se recusam a partir da terra. Daí vem a sigla “Rest in Peace Department”.

Acontece que um bom tema não necessariamente rende um bom filme. E neste caso, acontecem tantas decisões equivocadas, como por exemplo o roteiro mal elaborado, as atuações caricatas, forçadas em um nível de descrença, e também o já mencionado fiasco dos efeitos especiais, que, em um plano geral, a produção não teria outra saída que não encarar seu fracasso na opinião especializada.

Todo o desenrolar lembra um pouco “Homens de Preto”, mas sem o seu charme tampouco suas qualidades textuais. Até mesmo o caso do parceiro novato relacionando com o experiente acontece neste filme, com uma diferença que poderia até ser útil, mas é bem pouco explorada pelo filme: os policiais são de épocas diferentes, sendo o mais velho do velho oeste e o outro dos dias atuais. Seria uma bela fonte para extrairmos diferenças de comportamento, de modus operandi de trabalho, enfim… Nada trabalhado de forma a tornar um pouco digerível a película.

A sensação que fica é a de que o filme nunca chega onde realmente queríamos que chegasse. Fica no meio do caminho. O diretor (o mesmo de “R.E.D. – Aposentados e Perigosos”) até se esforça um pouco para inovar em movimentação de câmera, montado uma narrativa mais ágil e pretensamente mais atraente. Contudo, suas escorregadas, tanto no comando das atuações, aliado ao fraquíssimo roteiro, quanto na supervisão de pós-produção, com suas capengas animações computadorizadas feita às pressas, se sobressaem ao saldo. Um pena ver Jeff Bridges, um ator tão versátil e com carreira respeitosa, interpretando de forma estereotipada e preguiçosa o velho cowboy sulista americano.

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No fim, ficamos decepcionados com o resultado, certo de que haveria material para uma boa matinê, com possíveis inspirações de “Os Caça-Fantasmas”, ou qualquer outra produção bem sucedida de fantasia. É, nesse caso não devemos mesmo mexer com os mortos… Deixe-os lá no outro plano que fica melhor.

Nota: 4 (Descanse em Paz, mesmo)

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UNIVERSAL PICTURES apresenta

uma produção ORIGINAL FILM / DARK HORSE ENTERTAINMENT

“R.I.P.D. – AGENTES DO ALÉM”

dirigido por ROBERT SCHWENTKE

roteiro por PHIL HAY, MATT MANFREDI

argumento por DAVID DOBKIN, PHIL HAY, MATT MANFREDI

baseado nos quadrinhos Dark Horse criados por PETER M. LENKOV

produzido por NEAL H. MORITZ pga, MIKE RICHARDSON, MICHAEL FOTTRELL

produtores executivos ORI MARMUR, RYAN REYNOLDS, JONATHON KOMACK MARTIN

produtores executivos DAVID DOBKIN, KEITH GOLDBERG, PETER M. LENKOV

diretor de fotografia ALWIN KUCHLER bsc

diretor de arte ALEC HAMMOND

montagem MARK HELFRICK ace

JEFF BRIDGES

RYAN REYNOLDS

KEVIN BACON

MARY-LOUISE PARKER

STEPHANIE SZOSTAK

ROBERT KNEPPER

JAMES HONG

MARISA MILLER

MIKE O’MALLEY

DEVIN RATRAY

música de CHRISTOPHE BECK

figurino por SUSAN LYALL

elenco DEBORAH AQUILA csa, TRICIA WOOD csa

supervisor de efeitos visuais MICHAEL J. WASSEL

um filme de  ROBERT SCHWENTKE

“R.I.P.D. – AGENTES DO ALÉM”

Crítica – Branca de Neve e o Caçador

A rivalidade entre as mulheres, filha e nova esposa, e a suplantação ao amor verdadeiro, ambientado no meio de batalhas pela coroa.

Um conto de fadas adaptado para os espectadores modernos. Isso é o que se depreende ao assistir ao filme. Mas não digo no sentido de transportar sua realidade para a atualidade, mas sim seu foco menos inocente, mais centrado na ação, e sem perder sua aura de fábula. A princesa agora é mais ativa, tem senso de liderança, e não se apega facilmente a um único amor. O clima é mais sombrio, quando necessário, mas também traz vivacidade no momento certo. O público de hoje, principalmente dos jovens (a que o filme é direcionado), tem uma visão mais aberta do que seja o herói. Não vemos mais aquela doçura de antigamente, aquela bondade quase tola. Hoje, temos a heroína, a guerreira, aquela que busca a todo custo seus objetivos.

E talvez isso é que chame mais a atenção no filme. Sua produção pautou pelos detalhes em demonstrar todo o cenário do reino baseado na idade média celta, que é o fruto de muitos dos contos de fadas. Embora não haja qualquer menção nos créditos, é notório ser uma adaptação ao famoso conto dos Irmãos Grimm, eternamente lembrado pela animação dos Estúdios Disney, de 1937. E está tudo lá: a madrasta que preza por sua beleza física, a princesa rejeitada, a tentativa de assassinato pelo caçador, o encontro dos anões, e até a maçã envenenada e o espelho mágico aparecem. Só que seu desenrolar agora possui um ponto mais centrado tanto em batalhas entre exércitos, como também na motivação da vilã e um reforço em um personagem que até então não era relevante: o caçador. Sim, esse homem, que antes tinha apenas a tarefa de matar a princesa, agora se vê numa situação que pode definir o destino do reino. Provavelmente um sinal da dualidade entre os amores da protagonista, e o foco na batalha, eis que centrar apenas na princesa poderia parecer enfadonho demais para acompanhar.

Falei da motivação da vilã, pois agora pudemos presenciar um pouco de seu passado em flashbacks. Ela teve uma infância difícil, de abusos e pobreza. Mas foi aí que descobriu a magia, e com ela veio o poder. Esse poder de seduzir e permanecer jovem. Esse poder de destruir e aterrorizar todos a sua volta. Será possível se simpatizar com a vilã pelo seu passado sofrido? Será que isso justifica seus atos malvados, como assassinar um rei, manter um governo tirano e maltratar os súditos, trazendo apenas miséria. Isso sem contar no poder de sugar toda a juventude das mulheres, com o propósito de se manter jovem e bela. E não seria isso o que vemos mais e mais atualmente? Mulheres tentando a todo o custo manterem-se jovens. Diria até que não só as mulheres. O medo da velhice parece enraizado na humanidade. E esse medo é transportado ao conto, na figura da antagonista.

Por outro lado, temos ainda a doçura da protagonista. Um tanto suavizada, mas ainda assim, vê-se a bondade e o altruísmo dela. Embora tenha sido aprisionada e mantida em cativeiro por diversos anos, nunca perdeu a benevolência e as qualidades de uma princesa. E a natureza parece lhe trazer toda a ajuda. E é interessante notar que posteriormente ficamos sabendo que os animais e demais seres da natureza são “hospedeiros” de pequenos duendes, como espíritos da floresta, numa alusão clara a “Princesa Mononoke”, animação japonesa de 1997. Está aí, portanto, uma inspiração ao caráter guerreiro e de liderança da heroína.

Pássaros são uma constante no filme. Em sua infância, a princesa socorre um corvo ferido, animal este que viria a ser a personificação da vilã, que se chama Ravenna (raven = corvo, em inglês), e aliado ao fato desses animais ajudarem a protagonista em sua fuga da masmorra e a conduzi-la a um santuário na floresta, o que lhe trará luz a seus ideais, nos mostra como esses seres são relevantes à trama. Importante também mencionar que a própria vilã se alimenta de órgãos dos pequenos animais voadores no anseio da manutenção de sua idade.

Dessa vez, o príncipe já não se vangloria de sua figura e não se caracteriza como o foco central dos sentimentos da princesa. Pode até parecer que haverá um certo romance entre a dupla, que se conhece desde criança em suas brincadeiras. Mas a verdade é que a figura da amizade é que fala mais alto, bem como a inversão da mulher no comando. Não mais o menino lidera as brincadeiras. Aqui, o príncipe (que nem é príncipe, mas filho do Duque) se mostra não só submisso, mas também é deixado a escanteio pela guerreira. A graça está em pensarmos que ele servirá para alguma coisa, mas a verdade é que não tem qualquer utilidade, a não ser servir de armadilha para confundir a protagonista no plano final da Rainha-Má (e aqui presenciamos a tal “maçã envenenada’). O fato é que o verdadeiro amor não está apenas na atração física, ou na simples afinidade da infância. O amor tem que suplantar tudo isso, o que vemos em apenas um personagem…

O caçador. Este homem, que teve um passado terrível de perdas e misérias. Viúvo, agora se vê entre os vícios da bebedeira e dos jogos de azar. Em seu desespero, acaba por aceitar a tarefa covarde de raptar a princesa fugitiva, sob uma promessa que viríamos a saber ser falsa. Porém, enxerga na protagonista uma certa esperança, uma certa chance de redenção, a proteger uma mulher que falhara no passado. Um tanto relutante em vislumbrar tal destino, o caçador acaba tomando algumas atitudes que podem parecer incompreensíveis no primeiro momento, mas se justificam no desenrolar da história. E não podemos deixar de comentar que, por ser um personagem mais atlético, será a figura central nas movimentadas batalhas que acontecem no decorrer da projeção.

E essa vem a ser a diferença crucial entre o conhecido conto de fadas e o presente filme. Ação é a palavra de ordem. O que vemos são inúmeras cenas de batalhas. Desde o começo, com o embate entre o exército do rei e os guerreiros de vidro, até os ataques ao castelo e ao vilarejo das mulheres marcadas por cicatrizes. A ação de desenrola de forma eficaz, sem muitos excessos, adequados para o baixo grau de violência da produção. É a ação no lugar do romantismo. A superprodução blockbuster atual exige movimento, cenas épicas, efeitos especiais de ponta.

Aqui, não há chances para qualquer romantismo. Aqui, a heroína não busca um parceiro para casar. O que ela quer é retomar a coroa que tem direito, e tirar seu povo da miséria. Sinal dos novos tempos, onde nossos valores mudam, no sentido de trespassar a barreira individual, com objetivo de trazer um benefício não só para a sociedade em que vive, mas também resgatando toda a vida da natureza. Seria uma analogia, onde o mau polui e o bem traz o verde. Não é à toa que vemos o reino da Rainha-Má todo devastado, apodrecido, em contraponto dos lugares onde a princesa visita, que se mostram imaculados, intocados pela ação predatória, com árvores verdes e animais interagindo com a natureza.

E, falando em efeitos especiais, é notável como o filme traz atores de estatura normal interpretando anões de forma convincente. Se não fossem pessoas de tanto renome e fama, ficaria difícil distinguir tais características. Uma pena serem os personagens apenas um alívio cômicos e aparentemente colocados só para reforçar os traços do conto de fadas. É verdade que o destino de um dos anões (que propositadamente tem um momento mais intimista com a protagonista em ocasião anterior) vem a ascender a faísca para a tomada de decisão no início do confronto entre os exércitos. Acontece que tal cena dramática é tão forçada (muito pelo momento intimista enfiado goela abaixo), que é um tanto complicado nos simpatizarmos com os personagens. E, tendo no elenco nomes tão fortes da dramaturgia, acredito que mereciam mais do que serem apenas uns coadjuvantes de luxo.

Essa eterna disputa entre filha e madrasta, qual a mais bela? Talvez por uma questão de amor pelo pai, este homem que agora se divide entre sua nova esposa e sua filha. Quem tem um lugar mais próximo em seu coração? Não seria o amor pela madrasta mais material (por isso a necessidade de se manter bonita e jovem), contra o amor de espírito, de afeto, de proteção, esse amor genuíno, que existe de pai para filha. Deve ser por isso que nos contos de fada o amor verdadeiro sempre vence. Será que não há mesmo lugar para romantismo? Vemos aqui que, apesar do foco nas batalhas, há sim, sempre uma oportunidade de se frisar que, mesmo não havendo o “felizes para sempre”, as pessoas que amam de forma sincera, saem vitoriosas.

Crítica – Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge

Um herói adormecido. Seu manto repousa tranquilamente no leito da paz. Até que uma nova ameaça atinja seu território e o force a retornar para mais um, e derradeiro, combate. Acontece que esse herói não é o mesmo de antigamente. Carrega consigo todo o sofrimento, feridas e perdas de aventuras passadas. Como isso pode refletir no andamento de sua jornada? Como isso pode se fechar e tornar-se um arco delineado?

E eis que surge um novo vilão. Uma pessoa que fora criada em um submundo que não conhece virtudes nem boas maneiras. Um soldado que encontra apenas uma finalidade: conquistar a cidade e quebrar (talvez até literalmente) seu vigilante protetor.

E o que aconteceria se uma cidade inteira fosse isolada de seu governo? E se essa cidade fosse Gotham City? Uma cidade tão infestada de crimes e vilões, que talvez nem Batman fosse capaz de administrar sua harmonia. Como viveria sua população? Como seriam suas novas regras? Um interessante estudo social.

Pois bem, essa introdução é tirada de elementos trazidos pelas histórias em quadrinhos do Batman. O herói que retorna depois de uma “hibernação” é baseada em O Cavaleiro das Trevas, escrita por Frank Miller. O vilão que quebra Batman, da saga A Queda do Morcego, por Doug Moench e outros. E, por fim, Gotham City isolada é trazida pelo arco Terra de Ninguém, de  Greg Rucka e outros.  E essa é a trama central meio complexa de Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge, parte final da trilogia de Christopher Nolan sobre o homem morcego. E por falar em “hibernação”, notem a imagem do morcego saindo do gelo bem no começo da projeção do filme.

No início, temos a apresentação do vilão Bane, nos mostrando que há uma especulação para a concretização de um plano maligno que ainda será revelado. É uma introdução típica de filmes de ação, onde fazemos uma imersão já em uma ameaça, em uma situação de nervosismo e angústia. Nos prepara para toda a projeção da aventura, que nos resgatará para a vitória final. Também serve para firmar o tom do filme, eis que a cena é bastante movimentada, com produção complexa e bem trabalhada.

Logo em seguida, temos o personagem do Comissário Gordon, prestes a discursar sobre a verdade por trás da adoração de Harvey Dent, que nada mais foi do que um vilão psicopata que havia ameaçado seu próprio filho. E aqui temos um ponto interessante para frisar: o que vem a ser a ética, diante de uma mentira a ser mantida e cultivada para preservar um bem maior? Há, realmente uma necessidade de fazer com que as pessoas pensem diferente da realidade, apenas com o fundamento de que assim estariam mais seguras? Um cidadão que assim age estaria indo contra princípios éticos? Nota-se que o filme trata bem desse assunto, que inclusive é reforçado pela situação que vive Alfred, que esconde de seu patrão Bruce Wayne a verdade de que a falecida Rachel pretendia se casar com Dent, sob o pretexto de que assim preservaria a paixão no coração do herói. Será que foi uma decisão acertada?

Percebe-se que o filme se ancora em acontecimentos do longa anterior, como também (principalmente) retoma fatos da primeira parte. E encerra suas questões por aqui. Ou seja, procurou nessa derradeira sequencia,  firmar-se como uma trilogia a ser conferida em sua integralidade, e não em partes episódicas. Essa é a definição de “trilogia”: uma lógica em 3 partes. É na terceira que encontramos o padrão que foi adotado em toda a saga. Necessariamente precisamos ter assistido às produções anteriores para um pleno entendimento. Ele não se sustenta por si só, o que pode parecer como um ponto negativo, mas não é, pois, convenhamos, é uma trilogia. E isso nos traz a um outro foco: não se trata de mais um filme de super-herói, onde em cada dia vemos uma aventura diferente. Estamos diante de uma verdadeira saga, cuja personalidade do herói é desconstruída, reforçando o tema central dos 3 filmes, que vem a se destacar não como o sujeito de máscara caçando bandidos, mas sim contando uma história sobre a dedicação que um sujeito tem por sua cidade. É e história do povo de Gotham City, de como um visionário buscou seu desenvolvimento, e como deixou um legado para o filho lutar para sua manutenção. Esse visionário é Thomas Wayne. Seu filho, Bruce/Batman.

Fé no povo de Gotham. Esse era justamente o cerne tratado em Batman Begins. Quando vimos todo o progresso gerado por Thomas ser praticamente abandonado após sua morte (muito por conta da má administração dos sucessores da Wayne Enterprises), percebemos a motivação de Bruce em buscar sua retomada, em limpar a cidade de toda a podridão que a Máfia comandada por Carmine Falcone trouxe. E, nesse meio tempo, presenciamos o plano da Liga das Sombras em destruir (literalmente) a cidade para tirar do mapa (também literalmente) essa sujeira que consideravam. Mas Batman tinha fé no povo, tinha esperança de que a situação poderia melhorar. E ele iria fazer de tudo para, ao mesmo tempo, livrar Gotham do mal, e impedir seu desaparecimento.

Quando passamos por Batman: O Cavaleiro das Trevas, testemunhamos a tentativa da Mafia em se reascender, com a ajuda do caótico Coringa e, mais uma vez, a população joga uma luz no fim do túnel, o que serviu justamente para derrotar seu memorável algoz.

E, como de fato se mostra, em …Ressurge temos mais uma vez os cidadãos serem tomados à prova, com o plano de Bane em isolar Gotham, retirando o poder de seus governantes e fazendo crer que daria ao povo. Algo como inspiração em O Conto de Duas Cidades, de Charles Dickens, que trazia fundamentos e conceitos da época da Revolução Francesa. Que experiência em análise social! Que demonstração de otimismo na Humanidade! E que conceitos do sujeito atuando sobre o bem social, inspirado em paixões pessoais! É Batman salvando Gotham em respeito ao amor de seu pai. Bela transposição de família e sociedade.

O filme em si tem muitos pontos positivos, mas também muitos problemas, que ficam se equilibrando na balança e acabam por trazer um resultado não excepcional, como foi a segunda parte, mas apenas satisfatório, o que não deixa de marcar a produção como um fechamento digno para a trilogia. Só não é uma obra-prima.

Pode-se dizer que essa última parte se destaca pelas atuações. Enfim, um filme que reúne um elenco tão prestigiado por produções mais intimistas e independentes, se mostra digno de se manter a mesma qualidade em um blockbuster. Anne Hathaway como Selina Kyle foi um dos pontos altos da película. Sua naturalidade em transpor tanto sensualidade quanto agilidade, bem como seu temperamento meio sarcástico em sua interatividade com os demais personagens trouxe uma aura, uma energia que não poderia faltar para o desenvolvimento mais agradável da história. Qualidade equivalente também demonstrou Michael Caine, que, com sua interpretação como o mordomo Alfred, captou a emoção, o calor do afeto mais próximo do público, gerando aquela empatia com o protagonista que certamente ajudou no desenrolar principalmente na parte final da história.

Porém, não podemos dizer a mesma coisa para Marion Cotillard, que faz uma personagem um tanto apática, e ainda mostra uma das mais forçadas e fingidas cenas em sua aparição final. Tampouco Tom Hardy se apresenta notável. Podemos dizer que a máscara atrapalha um pouco suas expressões faciais, e sua voz distorcida lembra muito a de Darth Vader em Star Wars. Mas certo é que o personagem Bane é forte o suficiente para sustentar o confronto do Bem e o Mal.

Quanto ao roteiro em si, ele apresenta muitos furos, que são facilmente perceptíveis ao longo da narrativa. Muitas decisões são mau explicadas, mesmo em se levando em conta toda a fantasia que nos remete o cinema. Afinal, Nolan quis trazer mais à realidade o personagem de super-herói. Então, nada mais justo do que tratar também com seriedade todas as nuances destacadas pelo roteiro para o desenrolar da jornada. Dessa forma, não podemos aceitar resoluções fáceis e truques farsantes apenas para se fechar de forma adequada a história.

Mas uma coisa é certa: a trilha sonora do filme continua marcante, como é a de toda a série. Sua batidas como a capa se esvoaçando, seu tom baixo e sombrio, e seus acordes intensos trazem todo o sentimento que realmente deve ser experimentado na tela. Temos, em adição, um tema mais ardiloso e com um certo ar de astúcia para Selina Kyle, e uma parte mais deprimente, com gritos de revolução para o vilão Bane.

Enfim, uma trilogia para ser apreciada de forma completa, em suas 3 partes. E, como toda e qualquer trilogia, um “final” não tão digno quanto o “meio”, porém melhor que o “começo”.

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